05 Janeiro, 2011

De Lima a Machu Picchu: dez dias e mil atrações!


Depois de anos adiando o sonho de ir a Machu Picchu, por vezes achando que em um feriado prolongado seria suficiente, sugerimos em primeira mão que você jamais faça isso. Não vale a pena; tire alguns dias a mais e aproveite para não somente conhecer Machu Picchu, mas também as diversidades naturais, culturais e sociais do Peru, pelo menos as do sul do país. Foram dez dias de viagem ao todo, de mochilão e albergues, dormindo cada noite em uma cidade diferente. Corrida e sem rotina, a viagem foi econômica e maravilhosa.

Tudo foi decidido de última hora e o planejamento foi feito sem maiores detalhes, para podermos ficar mais livres e decidir o que fazer por lá. Lemos um guia de viagens confiável, listamos alguns objetivos e lugares que queríamos muito visitar, colocamos as mochilas nas costas e partimos pra Lima!

Escolhemos nos hospedar em Miraflores, um distrito da cosmopolita cidade de Lima. Um bairro charmoso e boêmio, com cafés, restaurantes, hostels e muita agitação. Com um parque florido como referência principal, todo o bairro é repleto de flores, que ajudam a aumentar a atmosfera romântica que se tem em direção à costa e ao Parque de los Enamorados. Assim que chegamos (pela manhã), fomos ao sítio arqueológico de Huaca Pucllana, que fica situado no próprio bairro e há alguns quarteirões do centro de Miraflores. Surpreendente pelo tamanho e pela evolução arquitetônica, o sítio emerge no meio da modernidade do bairro com uma onipresente e nostálgica lembrança dos povos pré-incas que habitaram a região. Após isso, nos dirigimos ao centro da cidade de Lima, a Plaza de Armas e suas imponentes construções, como o Palacio Del Arcebispo, a Catedral de Lima e o Palácio Del Gobierno.

No dia seguinte, fizemos um pequeno e rápido city tour com um ônibus turístico. A intenção não era essa; mas sim ir até Pachacamac, um importante sítio arqueológico à uma hora de Lima, que estava incluído no passeio. Realmente fantástico, com linda vista para o mar, Pachacamac é um sítio com extrema relevância histórica e cultural, que pode vir a nos ensinar mais e mais sobre os incas e culturas pré-colombianas que habitaram a região. Ao voltar a Lima, tomamos o ônibus em direção a Pisco, nossa próxima parada.

Nossos objetivos eram as Ilhas Ballestas e a Reserva Nacional de Paracas. Saindo cedo pela manhã de Pisco, fomos até Paracas e tomamos um barco até as ilhas. No caminho, parada obrigatória para contemplar o Candelabro, desenho no mesmo estilo das Linhas de Nazca. Apesar de ter sido feito num solo arenoso, misteriosamente, o desenho nunca se apagou. Como as Linhas de Nazca, não se sabe até hoje como foi feito nem por quem. Já as Ilhas Ballestas não são conhecidas como The Peruvian Galapagos à toa. São o habitat de milhares de pássaros, lobos marinhos e pinguins, alguns vindo às ilhas apenas para se procriar. A vida marinha fervilha ao passo que se navega. É um lugar onde o homem pode admirar a diversidade e fecundidade da Mãe Natureza.

Após este passeio, que durou toda a manhã, fomos à Reserva Nacional de Paracas. Foi um dos pontos altos da nossa viagem, com paisagens maravilhosas e inesquecíveis. Almoçamos ao final da tarde em um restaurante na própria reserva e experimentamos o ceviche, prato típico peruano feito com frutos do mar e peixe.

De barriga cheia, voltamos à Pisco e seguimos rumo à Ica, chegando à noite. No dia seguinte passamos o dia inteiro em Huacachina, um verdadeiro oásis (o único oásis da América Latina), lindo e aconchegante. Sentamos às margens do lago, bebemos umas Cusqueñas (cerveja peruana, e que cerveja!), comemos mais ceviche, ouvimos músicas e apresentações de dança típicas, subimos as gigantescas dunas e descansamos. Pelo final da tarde, decidimos entre o sand boarding e o sand buggying, escolhendo o último. Adrenalina! Quase uma montanha russa, com a velocidade e as imensas dunas de areia (200 metros de altura) do deserto!

Seguimos então de ônibus leito noturno até Arequipa, outra parada importantíssima para nós, já que queríamos ir até o Canyon de Colca para observar o planado do condor andino. A cidade nos surpreendeu, e a achamos a mais bela e charmosa das que visitamos, com sua arquitetura blanca e os três vulcões (Chachani, El Misti e Pichu Pichu) que a vigiam incessantemente. Sua catedral é uma das mais lindas que já vimos.

No dia seguinte nos dirigimos ao Canyon de Colca, subindo a altitudes de mais de 4.900 metros de altura. Porém, os males da doença da altitude não nos atingiram tão fortemente, graças ao chá de coca (por sinal, uma delícia!) e às folhas de coca que mascamos. No caminho, paradas para observar a fauna, com alpacas, lhamas e vicunhas, os três tipos de camelídeos que habitam o Peru. Passamos por Chivay, vilarejo com ainda bastante tradição indígena (os camponeses ainda mantém suas vestes tradicionais), e nos hospedamos no vilarejo vizinho de Coporaque. À tarde fizemos uma pequena caminhada até um mirante para fotografar e admirar o Valle del Colca e os terraços de agricultura andinos pré-incaicos.

Rumo ao Colca Canyon, fizemos uma trilha de quase uma hora, admirando o canyon mais profundo do mundo, até chegar à Cruz Del Condor, único mirante onde se é possível observar o planado do condor andino. Desapontados pela espera de uma hora e meia sem sucesso, nos recuperamos quando o primeiro condor desceu, com suas asas de três metros de envergadura, planando por vezes a menos de dez metros de nós. Como a espera fora recompensada!

Voltando a Arequipa, satisfeitos, tomamos um ônibus leito noturno até Cuzco. Machu Picchu, o ponto alto e nosso objetivo principal se aproximava. Chegando em Cuzco pela manhã, fomos direto à minúscula cidade de Ollantaytambo, onde visitamos às ruínas de uma antiga fortaleza inca e admiramos as belas paisagens do Vale Sagrado, em meio às imponentes e brancas cadeias montanhosas andinas. Ao final da tarde, fomos de trem até Machu Picchu Pueblo (antiga Águas Calientes), pequena cidade na base das montanhas que sustentam Machu Picchu. Aqui vai uma dica: assim que chegar em Machu Picchu Pueblo, compre na cidade mesmo os tickets de ônibus e as entradas para o parque, para evitar filas monstruosas e perda de tempo no momento da visita à cidadela inca.

Acordamos cedo, antes de amanhecer. Chovia demais e tomamos o ônibus até Machu Picchu (vinte minutos aproximadamente). Chegando lá, ficamos frustrados... Havia parado de chover, pois estávamos a uma altitude acima das nuvens, mas o tempo nublado não nos permitia ver um palmo à nossa frente. Caminhamos e subimos os terraços agrícolas esbravejando. Porém, por volta das nove horas, as nuvens desapareceram e o sol resolveu aparecer. O que vimos então, foi uma vista completa e perfeita da Velha Montanha (Machu Picchu, em quíchua, idioma inca). Construída por Pachacuti no século XV, e descoberta pelo professor norte-americano Hiram Bingham, a Cidade Perdida dos Incas é considerada Patrimônio Mundial pela UNESCO. Com pelo menos 172 recintos, caminhamos boquiabertos pelas duas zonas da cidade bem definidas: a zona agrícola e a zona urbana. Enquanto se caminha por suas magníficas edificações e seu engenhoso sistema de drenagem, é impossível parar de tirar fotos de todos os ângulos e detalhes. Por fim, parafraseando Hiram Bingham no momento de sua descoberta, pensávamos: “Would anyone believe what we have seen?” (“Acreditará alguém no que vimos?”). Infelizmente e apesar da vontade, não tivemos tempo de fazer o trekking até Huayna Picchu, pois teríamos de tomar o trem de volta a Cuzco logo após o almoço.

Estupefatos e com nosso sonho realizado, voltamos de trem direto à Cuzco. Uma cidade linda, agitada e limpa. Passeamos pelo centro, a Plaza de Armas, e admiramos suas igrejas. A vida noturna parecia ser promissora e merecia ser aproveitada. Porém, voltávamos para casa no dia seguinte cedo e o cansaço nos venceu. Afinal, não nos preocupávamos muito com o que deixaríamos de aproveitar, pois cada um de nós prometeu a si mesmo que iria voltar. Muita coisa ainda nos faz querer revisitar o sul do Peru, sendo que as Linhas de Nazca, o Lago Titicaca, a Trilha Inca e o Vale Sagrado dos Incas são os principais. Mas nem por isso ficamos menos satisfeitos, e voltamos com a sensação plena de que esta viagem fora, no mínimo, inesquecível.

Daniel Lima

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